Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
Devaneios de um homem apaixonado


Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos,
resta-nos um último recurso:
não fazer mais nada.
Por isso, digo,
quando não obtivermos o amor,
o afeto ou a ternura que havíamos solicitado,
melhor será desistirmos
e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram.
Não fazer esforços inúteis,
pois o amor nasce,
ou não, espontaneamente,
mas nunca por força de imposição.
Às vezes, é inútil esforçar-se demais,
nada se consegue;
outras vezes,
nada damos e o amor se rende aos nossos pés.
Os sentimentos são sempre uma surpresa.
Nunca foram uma caridade mendigada,
uma compaixão ou um favor concedido.
Quase sempre amamos a quem nos ama mal,
e desprezamos quem melhor nos quer.
Assim,
repito,
quando tivermos feito tudo para conseguir um amor,
e falhado,
resta-nos um só caminho...
o de mais nada fazer.
- Clarice Lispector -